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Para atrair os turistas, uma cidade romena esconde seus mortos

Mirel Bran
Em Bucareste

A prefeitura da cidade de Mangalia, situada no litoral romeno do mar Negro, proibiu, na sexta-feira (1), os cortejos funerários. Conforme a tradição ortodoxa, à qual 87% dos romenos reivindicam pertencer, o morto deve ser levado pela sua família, seus parentes e amigos para "passear" pela cidade antes de ser enterrado. O ritual prevê várias paradas nas encruzilhadas, além de uma passagem pela igreja antes da chegada final ao cemitério. Preocupadas em preservar o potencial turístico da sua cidade, as autoridades locais de Mangalia tomaram a decisão de proibir o extenso ritual ortodoxo durante a temporada das férias, de 1º de maio a 15 de setembro.

"Os deslocamentos dos cortejos funerários pela cidade são prejudiciais ao conforto dos turistas e geram um estado de tristeza e de descontentamento", explica Mihai Tusac, o prefeito de Mangalia. "Além do mais, a presença dos cortejos nas estradas adjacentes coloca em perigo a vida das pessoas, em razão das dificuldades que os cortejos enfrentam para se deslocar e do aumento do número de carros durante a estação estival". A prefeitura propõe que a população local transporte discretamente o morto até o cemitério, sem dar todas aquelas voltas tradicionais pela cidade.

Esta medida não é nem um pouco objeto de unanimidade na Romênia, que se tornou membro da União Européia em 2007. Mas, os aportes financeiros proporcionados pelo desenvolvimento turístico do litoral do mar Negro reúnem todas as condições para mudar a regra do jogo. Em 2007, 1 milhão de turistas, dos quais 100 mil estrangeiros optaram por passar suas férias nas bordas do mar Negro. Neste ano, segundo previsão do ministério romeno do turismo, o seu número deveria aumentar em 15%.

Foi preciso esperar até o ano de 2000, quando foram iniciadas as negociações visando à incorporação da Romênia à União Européia, para ver começarem as obras de modernização do litoral romeno. As infra-estruturas obsoletas e os hotéis de arquitetura socialista herdados da época comunista não podiam, de fato, atrair muita gente. Apenas as pequenas aldeias típicas espalhadas pelo litoral romeno do mar Negro ainda conseguiam atrair os turistas movidos pelo gosto pela aventura.

Hotéis novinhos em folha

A incorporação à União Européia fez renascer o interesse pelo litoral romeno do mar Negro. Uma auto-estrada que conduzirá de Bucareste a Constantza, o grande porto situado no sudeste da Romênia, deverá ser concluída até 2009, enquanto os hotéis novinhos em folha vão se multiplicando. A injeção de 32 bilhões de euros (R$ 77,77 bilhões no câmbio atual), a serem fornecidos por fundos europeus daqui até 2013, deverá ajudar a melhorar o estado das infra-estruturas.

Preocupadas em fazer com que a sua cidade seja beneficiada por um eventual boom econômico na região, as autoridades locais de Mangalia optaram, portanto, por atropelar as tradições ortodoxas. "Dentro da sociedade moderna, a morte deixou de ser um evento compartilhado pela comunidade, tornando-se um aspecto da vida privada", precisa a lei local. "O objetivo desta medida é de incentivar o desenvolvimento do turismo, de acordo com as normas estipuladas pela União Européia. A lei deve garantir a proteção dos turistas e da biodiversidade biológica do litoral romeno".

Ou seja, um verdadeiro programa político concentrado numa simples lei. Jean-Yves de Neufville