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Para chocar pais, estudantes aderem ao nazismo

Dominik Cziesche, Conny Neumann, Barbara Schmid,
Caroline Schmidt, Markus Verbeet e Steffen Win

Um número crescente de jovens alemães, com pais liberais que são tolerantes sobre sexo, drogas e rock-and-roll, rebelam-se virando extremistas de direita. A moda, a música e a ideologia neonazista tornaram-se uma parte importante da cultura jovem alemã.

De onde veio essa imagem "alemã"?

É difícil dizer quem foi a primeira pessoa que apareceu em uma festa com uma camisa Lonsdale, amaldiçoou "os russos" ou copiou da web os últimos CDs da banda heavy-metal Kategorie C, de Bremen.

Mas Christian, Stefan e Andy realmente não se importam sobre como começou. Eles se consideram bons rapazes, membros de famílias decentes de uma pequena cidade a oeste de Munique. Eles têm quase 20 anos e estão se formando no colegial. E dizem que há estrangeiros demais "em nosso país". Dizem que se "eles" fossem embora as coisas certamente melhorariam.

Esses jovens acreditam que se os estrangeiros partissem haveria mais empregos e menos turcos desempregados recebendo dinheiro do governo. Não haveria traficantes de droga albaneses nas ruas nem muçulmanos machistas atacando suas garotas.

Eles também não correriam mais o risco de ser espancados por bandos de "russos" numa sexta-feira à noite na frente de seu bar preferido. Dizem que são sempre "os russos" que atacam primeiro.

Christian, Stefan e Andy não são do tipo que gosta de brigas. Eles repetem uma linguagem xenófoba e estúpida, mas não são simplesmente baderneiros imbecis.

Eles dizem que nunca votariam no Partido Nacional-Democrata da Alemanha (NPD), neonazista --pelo menos não por enquanto. Dizem que têm medo. Medo dos estrangeiros violentos em sua cidade. Tanto medo, de fato, que não quiseram dar nem seus primeiros nomes verdadeiros.

Para evitar agressões, eles descobriram um atalho pelos quintais quando saem na sexta-feira à noite. Desde que o bairro próximo à estação ferroviária se tornou um gueto de imigrantes, jovens alemães nascidos na Rússia (descendentes de alemães étnicos que viveram na Rússia durante gerações mas voltaram à Alemanha em grande número depois do colapso da União Soviética) têm percorrido as ruas centrais da cidade em busca de briga.

Primeiro, diz Andy, eles cercam a vítima, depois começam a empurrá-la e finalmente a atacam a socos. Desde então os três adolescentes, todos altos e atléticos, evitam o posto de gasolina e o estacionamento da academia de ginástica, locais que os russos freqüentam.

Essa postura defensiva é chamada de Deutschtümelei, ou "defender tudo o que é alemão". É uma atitude "nós contra eles" --os russos, turcos, albaneses...

Os jovens alemães não sabem mais diferenciar entre arruaceiros, estrangeiros e alemães pacíficos nascidos no exterior. E estão convencidos de que sua geração não deveria mais ser responsabilizada pelos crimes de Hitler.

Não seria melhor procurar a polícia ou falar com os pais? "Eles não têm idéia do que está acontecendo", diz Stefan. "E a polícia não se dá amis ao trabalho de aparecer. Eles não se importam."

Um dos rapazes diz que sua mãe, que ele caracteriza como "mais à esquerda", ficou muito aborrecida quando ele e um grupo de amigos amarraram a bandeira alemã a sua barraca durante uma viagem de camping nas férias.

"Ei, rapazes", ela disse, irritada. "Vocês devem estar loucos! Onde pensam que estão?" Mas o que a mãe do menino não pareceu notar era que todas as tendas ao redor exibiam bandeiras --holandesa, britânica, húngara-- e ninguém parecia se importar com isso.

"Não temos permissão para sermos patriotas. Não temos permissão para ter orgulho de nosso país, mas eles têm. Por quê? É realmente perturbador", eles dizem.

Por isso agora eles usam algo que chamam de insígnia secreta da direita: sapatos da marca New Balance. O "N" nos sapatos representaria "nacional", algo que as mães jamais imaginariam. Eles fazem download de canções de bandas como Störkraft ("força perturbadora") e usam o cabelo bem curto. Em vez de torná-los marginais nas escolas, hoje sua música e seus cabelos são considerados "chiques".

Silenciosa e persistentemente, uma nova cultura jovem se desenvolveu em toda a Alemanha, a leste e oeste. É germânica, xenófoba e potencialmente explosiva.

Enquanto o governo alemão faz o que pode para proibir demonstrações neonazistas diante dos monumentos às vítimas dos nazistas, o extremismo de direita está ganhando adeptos em escolas, shows e reuniões de jovens.

O "espírito nacionalista" tornou-se "crônico e generalizado" na antiga Alemanha oriental, diz Bernd Wagner, um especialista em extremismo. Mas os jovens dessas regiões têm pequena probabilidade de encontrar muitos estrangeiros lá. Segundo um estudo atual do Departamento de Educação Política da Baviera, esse extremismo de direita é um protesto --ou mesmo uma revolta-- contra os valores mais liberais da classe média do lado ocidental.

A maioria dos jovens de direita, tanto no leste como no oeste, não estão dispostos a se envolver em violência, mas preparam o terreno para os "skinheads" [carecas] e arruaceiros. Os primeiros efeitos desse processo já estão sendo sentidos.

Em seu relatório anual divulgado na semana passada, o Escritório Federal para a Proteção da Constituição nota que grupos neonazistas apresentaram índices de crescimento superiores a 25%. O número de crimes e atos violentos cometidos por extremistas de direita também está aumentando, assim como a freqüência aos shows de skinheads. O ministro do Interior, Otto Schily, diz que o movimento extremista de direita cada vez mais agressivo é causa de "grande preocupação".

Muitos pais e professores ficam completamente perplexos com as tendências xenófobas de seus filhos e alunos. São pais e mães que se tornaram adultos na década de 60, que deram a seus filhos uma educação liberal e cujo maior temor era que eles usassem drogas.

Foram completamente surpreendidos pelos sentimentos de direita dos jovens alemães.

Veja, por exemplo, uma mãe de Bremen que mudou-se para o campo com seu marido e três filhos alguns anos atrás. "Tudo é maravilhoso aqui", ela pensou na época. Dois anos e meio depois, quando ela expulsou seu filho de casa, as palavras de despedida dele foram "Heil Hitler!"

O menino havia sido cada vez mais atraído pelo ambiente de direita local. Os pais viram todos os sinais físicos, mas nada disso significava muito para eles.

Como poderiam saber que os suéteres da Lonsdale são especialmente populares entre os extremistas de direita? "Afinal, são roupas caras, por isso pensei que deviam ser marcas de qualidade."

Houve um incidente que os preocupou um pouco, mas pelos motivos errados. Um amigo de seu filho apareceu com uma jaqueta com a inscrição "Bierpatrioten" (patriotas da cerveja), o nome de uma banda de direita. Mas a mãe interpretou como um sinal de que talvez seu filho estivesse bebendo demais.

Com o tempo, ficou mais claro para a mulher e seu marido que seu filho tinha se inclinado para a direita. Ele escutava CDs com títulos como "Vingança para Rudolf Hess" e foi visitado pela polícia, que afirmou que ele e dois amigos tinham espancado um polonês. Finalmente a mãe achou que era o suficiente e expulsou o filho de casa.

Os extremistas de direita tendem a recrutar jovens nas áreas rurais. A assistente social Heiko Helbig, de Augsburgo, chama o fenômeno de "fascismo de aldeia".

Um dos motivos pelos quais as áreas rurais tornaram-se um terreno tão fértil para os neonazistas é a falta de atividades para os jovens. Os que não são membros de times atléticos tornam-se presa fácil para os recrutadores. Durante encontros de jovens, Helbig às vezes descobre meninos aparentemente inofensivos distribuindo panfletos de canções que foram populares no exército nazista, a Wehrmacht.

Outros trabalhadores de rua dizem que o partido de extrema-direita NPD patrocina viagens para demonstrações em Dresden para estudantes colegiais -- viagem de ônibus, almoço e cerveja grátis.

"A direita parece ter descoberto a chave", disse o conselheiro de jovens Detlef Menske, de Nürnberg. Na verdade, a cultura nazista tornou-se tão onipresente na vida diária de alguns jovens que eles usam a voz de Adolf Hitler como tom de chamada em seus celulares e símbolos nazistas como protetores de tela no computador.

Um dos aspectos mais nocivos da atividade neonazista na região rural da Alemanha é o silêncio da geração dos pais. As autoridades e a polícia locais ainda consideram as iniciativas neonazistas como uma atividade periférica e se recusam a reconhecer o potencial de conflito com bandos de estrangeiros violentos nas cidades menores do país.

A imprensa na cidade de Aichach, na Baviera, havia noticiado sobre um grupo supostamente estrangeiro que atacava jovens alemães, aparentemente ao acaso.

A polícia minimizou a reportagem, dizendo que se tratava de "um grupo isolado". Talvez estivesse certa, mas os jovens da cidade registraram diversos ataques, uma circunstância que ninguém parece estar levando a sério em Aichach --ninguém menos os extremistas de direita.

A situação é semelhante na pequena cidade de Cloppenburg, no norte da Alemanha. Hoje, 25% de seus moradores são imigrantes, e jovens alemães nascidos na Rússia começaram a aterrorizar a cidade. O parque local hoje é considerado perigoso à noite, com pedestres relatando ataques a faca.

Somente depois que o político local Hans-Jürgen Grimme, da CDU (União Democrata Cristã), foi assaltado, a população local finalmente embarcou numa discussão aberta dos problemas de integração.

Os russos estão chegando

Muitas comunidades, geralmente pequenas, hoje enfrentam constantes conflitos em conseqüência de iniciativas fracassadas para integrar os alemães nascidos no exterior e outros estrangeiros.

Somente entre 1993 e 2004 a Alemanha experimentou o ingresso de cerca de 1,6 milhão de imigrantes da antiga União Soviética. Havia muitos programas orientados para o ensino do idioma e a reintegração, mas quase ninguém previu a resistência de muitos jovens imigrantes a aprender alemão e se assimilar.

Na verdade, alguns preferiram se entrincheirar em suas próprias micro-sociedades, com suas próprias leis. Era uma situação que os promotores de ideologias nacionalistas desde então manipularam para seus próprios fins de propaganda.

Com essa situação explosiva, os políticos alemães já se sentem derrotados. É uma questão delicada que os líderes políticos muitas vezes ignoram ou minimizam, especialmente por estarem compreensivelmente fazendo o máximo para não incentivar a xenofobia.

Para complicar ainda mais as coisas, os crimes cometidos por alemães nascidos no estrangeiro não são registrados separadamente nas estatísticas de criminalidade, porque os infratores já têm passaporte alemão.

Hans-Peter Kemper, a autoridade do governo encarregada de questões de imigração, acredita que a integração de mais de 2 milhões de imigrantes de ascendência alemã foi geralmente bem-sucedida. Ele acredita que as notícias de jovens criminosos nesses grupos são exageradas e não sustentadas por estatísticas.

Afinal, ele diz, 95% dos alemães de origem russa no Estado da Renânia do Norte-Vestfália nunca foram sequer notados pela polícia. Mas, ele acrescenta, "é inegável que existe uma pequena minoria de jovens entre esses grupos de imigrantes que estão dispostos a cometer atos violentos e são fortemente atraídos pelo álcool e as drogas".

O silêncio geral sobre as gangues de imigrantes violentos e sobre os jovens nazistas alemães é especialmente benéfico para os extremistas de direita. Os neonazistas há muito tempo mudaram suas táticas no que se refere aos jovens, não contando mais somente com velhos slogans para passar sua mensagem. Hoje eles organizam viagens de acampamento, torneios de futebol, caminhadas e concertos, assim como dirigem clubes de jovens.

Grupos como a Associação dos Habitantes da Pomerânia montaram quiosques de informações na frente das escolas. E no ano passado o NPD e sua organização para jovens, Juventude Nacional Democrata (JN), usou CDs e panfletos para transmitir sua mensagem pelo Estado de Rheinland-Pfalz.

Na cidade oriental de Stralsund, um porto no mar Báltico, um grupo com o nome da cidade vem há muito tempo distribuindo seu jornal, "Avanti", que traz até charges sobre a vida sexual de Anne Frank ("Por Baixo dos Lençóis").

O sucesso do novo culto entre os jovens tornou-se evidente recentemente em uma escola secundária da região de Jerichower, no Estado oriental de Sachsen-Anhalt: estudantes tinham pregado uma suástica e uma placa que dizia "ódio negro" a um boneco preto, depois começaram a pisotear e cuspir no boneco, o penduraram com um cordão de sapato e finalmente o queimaram com cigarros.

Segundo o ramo local do Departamento Federal de Proteção à Constituição, o incidente mostra que "a ideologia extremista de direita já está inculcada em muitos estudantes".

Mas a maioria dos jovens ainda entra para esse cenário por meio da música. Shows extremistas romantizados por uma aura de ilegalidade estão ganhando popularidade, e o rock de direita está florescendo.

Bandas como Oidoxie atraem multidões de jovens. A banda grava suas canções em computadores domésticos e os vende pelo preço simbólico de 88 centavos ("88" representa a oitava letra do alfabeto duas vezes, ou HH, para "Heil Hitler").

Torsten Lemmer, de Dusseldorf, ex-diretor da gravadora Rock Nord, diz que os jovens são muito atraídos por qualquer coisa ilegal. No passado foram as drogas, mas hoje, segundo ele, são os CDs proibidos. O. NPD substituiu o LSD como a droga preferida.

O psicólogo de jovens Wolfgang Bergmann, porém, acredita que isso tem pouco a ver com ideologia. Juntamente com os assistentes sociais, ele diz que o extremismo de direita tende a ser, pelo menos para algumas pessoas, uma fase da puberdade: a maneira mais "bacana", mais eficaz e possivelmente a única de chocar pais liberais que hoje não se incomodam com drogas ou com notas baixas.

Imagem ou ideologia?

Talvez esse seja exatamente o motivo pelo qual, para muitos jovens, o código de vestimenta de direita é mais importante que a convicção interior. Marcas como Masterrace, Pit Bull Germany e Thor Steinar são especialmente populares entre os jovens de direita, assim como botas Doc Marten, camisas Fred Perry e jaquetas Lonsdale.

Chocadas por esse visual agressivo, algumas escolas, como uma na cidade de Weinstadt, na Suábia, proibiram certas marcas. Mas os neonazistas são criativos, e substituem o que se torna proibido.

"88", por exemplo, é substituído pela seguinte frase: "Não culpado conforme a acusação" --o slogan usado pelos nazistas nos julgamentos em Nuremberg. Quantos professores hoje em dia sabem o que isso significa?

Geert Mackenroth (CDU), o ministro da Justiça do Estado da Saxônia, pretende reconquistar os jovens. Recentemente ele se reuniu com alunos da 10ª série do colégio Friedrich Schiller em Pirna para discutir como sua cidade foi "libertada" por bandos de jovens alemães.

Os adolescentes, alguns quase crianças, atacaram 15 vezes um restaurante de propriedade de um turco. Os turcos finalmente desistiram e se mudaram para Berlim, onde hoje estão sendo julgados sob a acusação de ter usado tacos de beisebol e facas para se defender do ataque de extremistas de direita.

Nenhum dos alunos do colégio Schiller esteve envolvido nos ataques aos turcos. Se quiser chegar à raiz do problema, o ministro deveria visitar a escola vocacional da cidade, cujos diretores há pouco tempo tiveram de proibir as botas devido ao risco de ferimentos. Os alunos da escola às vezes colocam seu endereço no boletim como "Estrada de Auschwitz".

O governo federal, cujo chanceler (primeiro-ministro) pediu uma "revolução dos cidadãos decentes", pretende gastar 180 milhões de euros até 2006 em programas para combater a ideologia de extrema-direita.

O foco principal serão programas educacionais nas escolas. O resultado da falta de conhecimento de muitos alunos sobre o nazismo pode ser devastador. Segundo a especialista em jovens Brigitte Kather, até estudantes da alta classe média estão se tornando cada vez mais desinibidos para disseminar clichês anti-semitas.

Ela escutou um aluno dizer: "É óbvio que ele é rico. Afinal, ele é judeu", referindo-se a um empresário. E um aluno de colégio no bairro de Kreuzberg em Berlim definiu os judeus como "pessoas que recebem dinheiro porque seus pais foram assassinados".

Enquanto isso, até a polícia e as autoridades do Departamento Federal de Proteção à Constituição começaram a tentar atingir os adolescentes com campanhas educacionais. "Devemos enfrentar as realidades sociais", adverte um agente do governo, "ou outros o farão."

O grupo a que pertencem Stefan, Andy e Christian, perto de Munique, provavelmente não ficará impressionado com essas iniciativas. Eles decidiram levar para as ruas sua luta contra os jovens estrangeiros violentos.

Quando a assistente social local sugeriu que as gangues adversárias se encontrem no centro de jovens para discutir suas diferenças, os três rapazes encolheram os ombros: "Isso é uma piada. Ela realmente não entende". É cada vez mais comum na Alemanha o comportamento de jovens de várias classes sociais que repudiam estrangeiros com violência e veneram o nacional-socialismo de Hitler através de bandas de rock Luiz Roberto Mendes Gonçalves