Jovem

Preocupação excessiva com o corpo coloca pais em alerta

Da Agência JB

As reclamações constantes sobre mudanças sofridas pelo corpo são tão comuns durante a adolescência que a fase já foi até apelidada pelos pais como o período dos aborrecimentos. Em meio à valorização de corpos esculturais e ídolos, pode parecer normal que um jovem, ainda imaturo, tenha vergonha de aspectos relacionados ao físico. No entanto, especialistas alertam que as preocupações com o corpo em proporções exageradas ou muito precoces devem ser observadas e merecem atenção especial da família.

A psicóloga de família Maria Luiza Lara, da Pró-Nascer, considera que a preocupação com o corpo em jovens é motivada por toda uma valorização excessiva da imagem presente na sociedade de um forma geral e que essa carga de informações vem afetando, inclusive, crianças abaixo dos 10 anos, o que era incomum. De acordo com a psicóloga, a influência de filmes e ídolos pode incentivar esse comportamento, mas neste caso a principal influência vem dos pais.

"Se uma criança cresce sendo deixada na escola por uma mãe que, em seguida, vai para academia, ela vai interpretar essa informação de alguma forma", explica Maria Luiza. "Nunca é natural uma criança se preocupar com o corpo, a criança faz coisas por prazer. Quando isso acontece, geralmente a preocupação é influenciada por alguém próximo, no caso, a família que pode ter transmitido esse entendimento errado do corpo para ela", completa.

A pediatra Maria Cristina Duarte, integrante da Sociedade Brasileira de Pediatria, explica que a adolescência é uma fase em que há uma preocupação maior com a aparência e com a aceitação no meio social e, mesmo crescendo, o jovem ainda tem uma mente infantil, o que torna difícil certos entendimentos. No entanto, a partir do momento que o jovem deixa de fazer atividades que eram prazerosas, se alimentar ou estar em meio aos amigos por uma preocupação muito acentuada com a aparência, o caso pode se tornar preocupante e deve ser considerado.

"Uma coisa é ouvir uma menina reclamando do corpo ao botar um biquíni, mas ver que quando vai à praia fica bem e se diverte com o coleguinhas. Outro caso é quando apresenta uma visão corporal errada e de forma tão acentuada que se tranca, não conversa, não expõe o corpo e tende a um isolamento constante, que começa a ser prejudicial a ela", pondera a pediatra.

Promessa

C. B. relata que, aos 11 anos, sua filha B.B. começou a não querer mais se alimentar com a justificativa de que tinha feito uma promessa e, por mais que fosse magra, reclamava de estar acima do peso.

"Ela era capaz de passar um dia inteiro sem comer, dizendo que não estava com fome, ficava batendo com o garfo no bife. Reclamava que era gorda e mencionava alguns ídolos que tinha", conta a mãe.

Preocupada, C.B. revela que procurou conversar com a filha, e também pedir a ajuda de um pediatra, que a encaminhou para um especialista.

"Hoje, depois de quase dois anos do problema, eu ainda percebo que ela tem uma visão muito distorcida do corpo, mas ela já consegue comer algumas coisas. A gente vive em uma sociedade que cobra uma magreza que não existe, tento mostrar pra ela que aquela mulher do outdoor não é real", comenta.

E não são apenas os quilinhos a mais que atormentam os pensamentos dos jovens, mas também aspectos na aparência relacionados a orelhas de abano, nariz, altura, sinais na pele, entre outros . O psiquiatra infantil Fabio Barbirato relata que um de seus pacientes andava com todo o cabelo cobrindo o rosto por ter vergonha do nariz.

De acordo com o psiquiatra, se o incômodo começa a trazer transtornos ao paciente, há motivo de preocupação, já que sintomas de privações por conta da preocupação com o corpo aparecem em até 18% das crianças que apresentam quadro depressivo ou de ansiedade.

"É preciso um acompanhamento para evitar complicações desse quadro que chamamos de desmorfobia corporal, ou seja, se ver diferente do que é, exaltar defeitos de forma exagerada. Isso pode levar o jovem ao isolamento, perda do ano escolar e, em casos mais graves, um sofrimento que pode até provocar suicídio", informa.

Para Edson Saggese, psiquiatra do Hospital Dia, de saúde mental infanto-juvenil, a preocupação com a aparência física em crianças e adolescentes é reflexo da influência de uma sociedade onde as pessoas se representam, de maneira geral, pelo corpo. O especialista alerta ainda para o risco de não se definir um quadro único.

"Vivemos em uma sociedade de altos níveis de narcisismo e isso pode afetar crianças e jovens, mas cada caso tem a sua complexidade e é diferente do outro, é preciso cuidar, mas também ter cuidado para não patologizar e querer medicação para tudo", conclui.