O senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) afirmou não entender como o ministro Joaquim Barbosa, do STF (Supremo Tribunal Federal), considerou um documento "falso" como prova do seu envolvimento com o mensalão mineiro.
"É tão vagabunda a falsificação que o delegado [Luiz Flávio] Zampronha, que foi extremamente duro comigo, não considerou essa prova", disse.
Trata-se de recibo de R$ 4,5 milhões com a assinatura do senador destinado às empresas de Marcos Valério. O documento, diz ele, foi montado pelo lobista Nilton Monteiro. Azeredo também rejeita a tese de que o esquema foi o embrião do mensalão que anos depois abalou o governo Lula.
FOLHA - O sr. acusa o ministro relator de usar prova falsa?
EDUARDO AZEREDO - Manifestei indignação de chegar ao STF um documento que é xerox. Não existe o original. É alguém pegar a assinatura num cheque, tirar xerox e escrever em cima.
FOLHA - Mas o documento consta na denúncia do Ministério Público e está nos autos...
AZEREDO - O delegado fez uma análise dura e não considerou esse recibo porque disse que era muito fajuto. O processo vem com tudo. Agora, no fim é que tem a decisão do procurador. E ele não considerou esse recibo como válido.
FOLHA - Como o recibo foi parar no processo?
AZEREDO - Ele [delegado] citou que recebeu isso de Nilton Monteiro. Não é possível que um país como o Brasil permita que um homem desse continue solto. Tenho que dar explicações, e o cara está solto.
FOLHA - Monteiro não participou da sua campanha?
AZEREDO - Teve uma relação com esse Cláudio Mourão [tesoureiro da campanha] num determinado momento e aí ele entrou nesse processo assim. Agora, como é que ele continua? Eu sei que ele tem ligações com um ex-deputado de Minas do PT. Eu não estou atacando o PT, não. [Eduardo] Suplicy me deu apoio, Tião Viana me ligou. Eu tenho respeito pelo Lula.
FOLHA - Outra prova que consta contra o sr. é a liberação de recursos de estatais para eventos que depois foram desviados para campanha.
AZEREDO - Não há nenhuma prova de autorização minha. Se não tem prova de que o Lula autorizou o Banco do Brasil, a Visanet, tá certo não ter incluído o Lula [no mensalão]. O que estou dizendo é que no caso dele considerou-se que as empresas tinham gestão própria. No meu caso, não se considera.
FOLHA - Joaquim Barbosa aceitou a denúncia de peculato por causa desses contratos...
AZEREDO - Esse negócio do Bemge [Banco do Estado de Minas], ele [Ministério Público] pediu que eu respondesse sete vezes por peculato. Cinco delas são por causa de cinco cotas de patrocínio de R$ 100 mil pagas pelo banco. O presidente do Bemge disse que não sabia. Como o governador vai saber?
FOLHA - Por que o sr. acha que foram por essa linha?
AZEREDO - Eu confio numa decisão técnica do STF. O ministro [Joaquim] não é mais promotor, não. Ele é ministro.
FOLHA - Na denúncia consta que o sr. trocou vários telefonemas com Marcos Valério.
AZEREDO - De mim para ele foram dois retornos. Não estou dizendo que só falei com ele duas vezes, não. Eu tô dizendo que eu retornei duas vezes.
FOLHA - Há testemunhas que dizem que o sr. participava do comitê financeiro da campanha.
AZEREDO - Tem uma tal de Vera [Mourão, prima do tesoureiro da campanha]. Ela teria declarado que se reunia semanalmente comigo para tratar das questões financeiras da campanha. Nunca participei de reuniões semanais com ela.
FOLHA - O Ministério Público concordou que a coordenação da campanha era feita por pessoas de sua extrema confiança...
AZEREDO - Eu não participava dessas reuniões. Eu estava no governo e pedindo votos.
FOLHA - O sr. ficou rico depois da campanha?
AZEREDO - Tenho vida de classe média alta. Vivo de salário.
FOLHA - Seu mandato termina no ano que vem. O que fará?
AZEREDO - Vou me candidatar a senador.